Professores da Fundação de Escolas do Amor de Deus participam no Simpósio sobre o Futuro da Educação em Fátima

Professores da Fundação de Escolas do Amor de Deus participam no Simpósio sobre o Futuro da Educação em Fátima

Nos dias 2 e 3 de outubro, um grupo de professores da Fundação de Escolas do Amor de Deus marcou presença no Simpósio “A Educação e a Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização”, que decorreu em Fátima.

O encontro foi o ponto de chegada de vários meses de auscultação e reflexão ativa sobre a realidade educativa nacional.

Num contexto marcado pela aceleração tecnológica e pelo impacto crescente da Inteligência Artificial (IA), o simpósio promoveu uma reflexão profunda sobre o verdadeiro papel da escola. Mais do que responder ao “o que ensinar” ou focar no desempenho e nas classificações, a iniciativa sublinhou a urgência de questionar “para que educar” e que tipo de pessoa se pretende formar num mundo em constante transformação.

Sob a metáfora do “mapa” e da “caminhada comunitária” (evocando a dinâmica sinodal), destacou-se a necessidade de atualizar as referências educativas sem perder a orientação fundamental: a centralidade da pessoa e a dignidade humana acima de qualquer algoritmo ou tecnologia. Para a comunidade educativa cristã, relembrou-se que a bússola que orienta este caminho contínuo de humanização e esperança é o testemunho e a pessoa de Jesus Cristo.

A participação dos nossos docentes neste simpósio reflete o compromisso contínuo do Colégio Nossa Senhora de Lourdes com a formação permanente da sua equipa e com uma educação integral, atenta aos desafios do presente e aberta ao futuro.

Texto de reflexão elaborado a partir da participação no Simpósio “A Educação e a Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização”, Fátima, 2 e 3 de outubro de 2026.

Vivemos num tempo em que o mundo parece mudar mais depressa do que a nossa capacidade de o compreender. As formas de comunicar transformam-se, as profissões reinventam-se, as linguagens alteram-se, as relações humanas ganham novas configurações e as tecnologias introduzem, quase diariamente, possibilidades que ainda há pouco tempo pertenciam ao domínio da ficção. A inteligência artificial (IA) constitui talvez a expressão mais evidente desta aceleração, não apenas pelo que já consegue fazer, mas sobretudo pela velocidade com que continua a aprender, a adaptar-se e a ampliar as suas capacidades.

Perante esta realidade, a educação encontra-se diante de uma questão que ultrapassa largamente a discussão sobre ferramentas digitais, plataformas ou metodologias de ensino. A pergunta fundamental é outra: que espécie de pessoa queremos formar num mundo que ainda não conseguimos imaginar? No limite, provocaria esta: Qual o lugar da Educação Moral e Religiosa Católica nesse processo?

Esta questão esteve no centro das reflexões do Simpósio «A Educação e a Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização», realizado em Fátima nos dias 2 e 3 de outubro, depois de vários meses de preparação assente num processo de escuta ativa da realidade educativa. A própria metáfora do mapa revelou-se particularmente feliz. Educar é, de algum modo, ajudar alguém a orientar-se: oferecer referências, indicar caminhos, reconhecer perigos, abrir horizontes e acompanhar uma viagem que nunca poderá ser inteiramente feita por quem educa.

Educar e caminhar: a dinâmica do Sínodo e a Magnífica Humanização

Esta ideia de viagem recorda-nos que educar é, por natureza, um ato itinerante. Tal como a própria palavra Sínodo evoca — caminhar juntos (syn-hodos) —, a educação é também, antes de tudo, caminho partilhado. Não é um trajeto solitário nem uma corrida individualista, mas um percurso comunitário de descoberta e de escuta mútua. É neste caminhar em conjunto que a procura por uma Magnífica Humanitas ganha verdadeiro sentido. A «magnífica humanização» a que a escola e a educação são chamadas não se constrói na estagnação, mas sim no movimento de quem aceita pôr-se a caminho e transformar-se ao longo da travessia sem medos, mas com coragem e audazia.

Mas existe hoje um problema novo: o território mudou e os mapas que possuíamos parecem já não ser suficientes para o representar. Isto não significa que tenham perdido todo o seu valor. Significa, antes, que precisamos de os reler, de os atualizar e, eventualmente, de construir novos mapas educativos, novos caminhos. E, sobretudo, precisamos de saber qual é a bússola que deve orientar esses mapas. Não restam dúvidas que a bússola é a pessoa de Jesus Cristo.

Educar é saber para onde queremos ir

Nenhuma viagem começa verdadeiramente sem uma ideia, ainda que provisória, de destino. Podemos caminhar muito, percorrer grandes distâncias e conhecer inúmeros lugares, mas, se não soubermos para onde queremos ir, o movimento pode transformar-se simplesmente em dispersão. Também a educação necessita de um horizonte.

Na tradição bíblica, o livro do Êxodo retrata de forma exemplar a coragem de caminhar diante do desconhecido: perante o mar intransponível e as incertezas do deserto, abre-se um caminho a pé enxuto para a libertação. Gosto particularmente da expressão «a pé enxuto» porque nos dá a ideia de não privação, de sermos aquilo que somos na nossa natureza. Educar exige hoje uma audácia semelhante. Perante os mares revoltos de um mundo em aceleração tecnológica e incerteza social, educar é ter a fé e a audácia de rasgar caminhos a pé enxuto onde parecia haver apenas bloqueio, confiando que a travessia vale a pena.

Durante demasiado tempo, talvez tenhamos pensado a educação sobretudo a partir daquilo que o aluno deve saber, dos conteúdos que deve dominar, das competências que deve adquirir ou dos resultados que deve alcançar. Tudo isto é importante, mas não é suficiente. Antes de perguntarmos «o que devemos ensinar?», precisamos de perguntar: «para que queremos educar?»

Se educamos apenas para o desempenho, formaremos pessoas capazes de desempenhar. Se educamos apenas para a empregabilidade, formaremos pessoas preparadas para trabalhar. Se educamos apenas para a eficiência, procuraremos pessoas eficientes. Mas a educação não pode ficar reduzida a nenhuma destas dimensões. Hoje as classificações dizem tudo e nada ao mesmo tempo, pois os alunos são todos diferentes e não podem ser classificados de qualquer forma.

Educar é acompanhar o crescimento da pessoa na sua totalidade. É ajudar alguém a desenvolver inteligência, liberdade, consciência, responsabilidade, capacidade relacional, sentido crítico, sensibilidade ética e abertura ao transcendente. Para o educador cristão — e para a própria bússola educativa que orienta esta humanização —, esse sentido último é uma Pessoa. A verdadeira bússola que orienta a nossa vida e os nossos mapas educativos é Jesus Cristo, que nos guia pela Sua própria Vida, pelas Suas escolhas e pela Sua obra. Uma bússola que ganha visibilidade no testemunho vivo dos Seus apóstolos e de todos aqueles que, ao longo da história, aceitaram caminhar. É precisamente por isso que educar é um ato de esperança. Somos guiados pela ideia de um bem maior.

Quem educa acredita que o futuro ainda está aberto. Acredita que a pessoa pode crescer, que um erro não encerra uma história, que uma dificuldade não determina definitivamente um percurso e que aquilo que hoje é apenas potencial pode amanhã tornar-se realidade. Educar é lançar sementes sem possuir a garantia do fruto. E talvez seja essa uma das formas mais belas de esperança.

A pessoa antes do algoritmo

A emergência da inteligência artificial tornou esta questão ainda mais urgente. Não porque a inteligência artificial seja, em si mesma, inimiga da educação. Pelo contrário, pode constituir uma ferramenta extraordinariamente poderosa para aprender, investigar, criar, comunicar e ultrapassar determinadas limitações. O problema começa quando a ferramenta deixa de estar ao serviço da pessoa e a pessoa começa a submeter-se à lógica da ferramenta.

É urgente, por isso, afirmar um princípio simples: a pessoa deve estar antes do algoritmo.

Não se trata de estabelecer uma guerra entre humanidade e tecnologia. Trata-se de estabelecer uma ordem. A tecnologia deve servir a pessoa porque a pessoa possui uma dignidade que nenhuma máquina possui e que jamais possuirá.

Uma inteligência artificial pode processar informação em quantidades extraordinárias. Pode reconhecer padrões, estabelecer relações entre dados, produzir textos, gerar imagens, responder a perguntas e realizar tarefas complexas. Mas a pessoa humana não é um sistema de processamento.

A pessoa compreende o significado daquilo que vive. A pessoa sofre. A pessoa ama. A pessoa contempla. A pessoa espera. A pessoa perdoa. A pessoa sente compaixão. A pessoa procura a verdade. E, sobretudo, a pessoa é capaz de colocar perguntas para as quais talvez nunca exista uma resposta completamente satisfatória: Quem sou? Para onde vou? Porque existo? O que vale a pena amar? Que vida quero viver? Que pessoa quero tornar-me?

Estas perguntas não são problemas técnicos. Não podem ser simplesmente resolvidas através de um algoritmo. Precisam de uma vida, de um testemunho e de educadores que aceitem caminhar lado a lado com os alunos, orientando a viagem pela luz do Evangelho rumo a uma humanidade verdadeiramente magnífica.

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